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Em alguma outra vida, devemos ter feito alguma coisa muito grave para sentirmos tanta saudade... Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um estalo, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói o cancro, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é a saudade. Saudade de um irmão que mora longe, saudade de o meu decimo aniversário, saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu, saudade de uma cidade, saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem estas saudades todas. Mas a saudade mais dolorosa é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Tu podias ficar no quarto e ela na sala, sem se verem, mas sabiam-se lá. Tu podias ir para a faculdade e ela para o treino, mas sabiam-se onde. Tu podias ficar o dia sem vê-la, ela sem te ver, mas sabiam-se amanhã. Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela ainda se arrepia com os beijos que ele lhe dá no pescoço. Não saber se ele continua a usar o perfume que ela lhe deu. Não saber se ela ainda usa os anéis que ele lhe ofereceu. Não saber se ele foi estudar como prometeu. Não saber se ela tem comido bem, se ele tem assistido às aulas na faculdade, não saber se ela vê a fotografia dele antes de dormir, não saber se ela continua a dizer as amigas que o ama, se ele continua a dizer aos amigos que só vive para ela, se ela continua a discutir com a mãe para estar com ele, se ele continua a chorar por ela. É não saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bonita. Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos. Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música triste, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer. Saudade é isso que eu estive a sentir enquanto escrevia. E o que tu provavelmente estarás a sentir depois de acabares de ler.
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